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O Uso Indevido de Plataformas Não Oficiais como MapBiomas, Terras e Global Forest Watch: Riscos Jurídicos e Violações ao Direito do Produtor Rural

Introdução

Nos últimos anos, plataformas privadas como MapBiomas, Terras e Global Forest Watch ganharam destaque como ferramentas de monitoramento ambiental com base em imagens de satélite e cruzamento de dados territoriais. Amplamente utilizadas por empresas, bancos e organizações da sociedade civil, essas plataformas oferecem visualizações dinâmicas sobre o uso da terra e alterações ambientais.

Apesar de seu valor técnico e científico, essas ferramentas não constituem fontes oficiais de informação reconhecidas pelo Estado brasileiro, como o Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis (IBAMA) ou os órgãos ambientais estaduais. Ainda assim, vem crescendo o número de instituições que utilizam seus alertas para justificar restrições contratuais, negações de crédito ou penalidades ambientais contra produtores rurais, o que levanta preocupações quanto à legalidade e à segurança jurídica dessas medidas.


Plataformas Não Oficiais: Instrumentos de Apoio, Não de Fiscalização

O MapBiomas é uma rede colaborativa composta por universidades, ONGs e startups, que mapeia o uso e cobertura da terra no Brasil. A plataforma Terras foi desenvolvida em parceria com a UFMG e o IPAM, e se propõe a rastrear a cadeia de suprimentos do agronegócio com foco na sustentabilidade. O Global Forest Watch, por sua vez, é um sistema global do World Resources Institute (WRI), que emite alertas de perda florestal com base em dados internacionais.

Embora todos esses sistemas contribuam para a produção de conhecimento e o monitoramento ambiental, nenhum deles possui delegação legal ou competência institucional para fins de fiscalização ambiental, aplicação de sanções ou vedação de crédito rural. São iniciativas de apoio técnico, e não ferramentas oficiais de governo.


O Exemplo da CAIXA: Boas Intenções, Riscos Jurídicos

A Caixa Econômica Federal, por meio do seu Fundo Socioambiental e de políticas internas de responsabilidade ambiental, vem adotando o uso de dados do MapBiomas para monitorar projetos financiados, evitando destinação de recursos a áreas com suposto desmatamento ilegal. A iniciativa contempla também o apoio a projetos sustentáveis como agroecologia e turismo comunitário.

Apesar das boas intenções, é importante alertar que o uso direto ou automático dessas plataformas para negar crédito rural ou aplicar penalidades pode gerar graves injustiças, especialmente quando os dados não passam por validação oficial nem são acompanhados do contraditório e da ampla defesa.


Riscos Reais: Simulações de Injustiças com Base em Dados Imprecisos

A seguir, algumas situações práticas e realistas em que o uso indiscriminado de alertas ambientais por plataformas não oficiais pode prejudicar gravemente o produtor rural:

  • Sobreposição mínima com imóvel vizinho embargado: um alerta de desmatamento pode ser emitido erroneamente contra um produtor cuja propriedade faz limite com uma área embargada, mesmo que a suposta infração se refira ao vizinho e a área envolvida seja irrisória (ex: 0,3 hectare de um total de 500 hectares).
  • Confusão entre colheita mecanizada e corte raso: áreas de cultivo de soja ou milho com colheita mecanizada podem ser interpretadas como desmatamento recente, quando na verdade fazem parte do ciclo agrícola regular e autorizado.
  • Desmatamento antigo anterior à aquisição: um alerta pode referir-se a um desmate ocorrido há mais de 10 anos, antes da aquisição formal da propriedade, responsabilizando indevidamente o novo proprietário.
  • Erro de georreferenciamento: divergências entre os limites cartográficos oficiais da matrícula do imóvel e os mapas utilizados pelas plataformas podem gerar imputações equivocadas a áreas legalmente preservadas.
  • Falhas em imagens de satélite: nuvens, sombras ou interferência atmosférica podem gerar leituras erradas, que depois são transformadas automaticamente em “alertas de desmatamento”.

Essas situações podem gerar negação de crédito rural, bloqueio de certificações ambientais, rescisões contratuais, exclusão de fornecedores e abalo à reputação do produtor, sem qualquer apuração oficial ou chance de defesa.


Fundamentos Jurídicos para Proteção do Produtor Rural

O ordenamento jurídico brasileiro oferece diversos instrumentos legais para proteção do produtor rural injustamente acusado com base em dados incorretos ou mal interpretados:

  • Código Civil:
  • Constituição Federal:
  • Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD – Lei nº 13.709/2018):

O produtor afetado pode buscar apoio jurídico para pleitear judicialmente a retirada das informações incorretas, exigir indenização por danos materiais e morais, e responsabilizar civilmente os agentes ou instituições que utilizaram indevidamente essas informações.


Conclusão

A tecnologia e o sensoriamento remoto são aliados poderosos na construção de uma agricultura mais sustentável. No entanto, seu uso deve respeitar os limites da legalidade, da boa-fé e dos direitos fundamentais dos produtores rurais.

Ferramentas como MapBiomas, Terras e Global Forest Watch são relevantes como instrumentos de apoio técnico, mas não podem substituir o papel dos órgãos ambientais oficiais. Ao serem utilizadas de forma automática ou punitiva por bancos, certificadoras ou compradores, essas plataformas podem se tornar vetores de injustiça, exclusão econômica e insegurança jurídica.

É dever dos profissionais do Direito, especialmente os atuantes no agronegócio, garantir que o produtor prejudicado tenha acesso à reparação, à justiça e à restauração de sua dignidade jurídica.


Referências Bibliográficas

GLOBAL FOREST WATCH. Disponível em: https://www.globalforestwatch.org/

BRASIL. Constituição da República Federativa do Brasil de 1988.

BRASIL. Código Civil. Lei nº 10.406, de 10 de janeiro de 2002.

BRASIL. Lei Geral de Proteção de Dados Pessoais – LGPD. Lei nº 13.709, de 14 de agosto de 2018.

BRASIL. Resolução CMN nº 5.193, de 18 de abril de 2024. Disponível em: https://www.bcb.gov.br

MAPBIOMAS. Disponível em: https://mapbiomas.org/

TERRAS Plataforma. Disponível em: https://www.terras.agr.br/

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